O que é o MABILIN?

O MABILIN é um conjunto de módulos para a avaliação de habilidades linguísticas de crianças falantes de português brasileiro e português europeu a partir dos 6 anos de idade.
Tem como finalidade dotar profissionais de educação, como professores e psicopedagogos, e profissionais de saúde, como fonoaudiólogos e terapeutas da fala, de um instrumento que permita identificar problemas de linguagem.

MABILIN é o primeiro instrumento teoricamente fundamentado para a avaliação de habilidades linguísticas características de transtornos que afetam o desenvolvimento da linguagem, criado originalmente para crianças falantes de português.
Foi desenvolvido no LAPAL (Laboratório de Psicolinguística e Aquisição da Linguagem) da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) com apoio da Fundação Carlos Chagas da Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ), e adaptado para o português europeu no CLUNL (Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa) com apoio do Programa Santander Universidades e da Fundação Calouste Gulbenkian.

O MABILIN avalia habilidades caracteristicamente comprometidas no quadro de transtornos que afetam o desenvolvimento da linguagem, particularmente o que parece afetar a linguagem de forma exclusiva - tradicionalmente denominado DEL (Distúrbio ou Déficit Específico da Linguagem), no Brasil, e PEL (Perturbação Específica da Linguagem) ou PEDL (Perturbação Específica do Desenvolvimento da Linguagem), em Portugal, equivalentes ao termo SLI (Specific Language Impairment), amplamente utilizado na literatura científica.

O MABILIN inclui avaliações de habilidades sintáticas, morfossintáticas e gramático-pragmáticas, de compreensão e de produção da linguagem.

A avaliação começa pelas habilidades sintáticas cuja detecção é mais sutil, podendo passar desapercebida pela família e pela escola, embora possa vir a comprometer o desempenho escolar.

O resultado das avaliações por meio do MABILIN indica o tipo de estrutura ou de processo que pode estar particularmente afetado no desempenho da criança em tarefas linguísticas. Contribui, assim, para a identificação dos aspectos da linguagem que requerem particular atenção da parte de profissionais de saúde ou de educação. Contribui, também, para investigações científicas sobre a natureza dos problemas que afetam o desenvolvimento linguístico.

Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem ou DEL

O termo Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL), a partir do inglês DLD (Developmental Language Disorder), foi recentemente adotado na área clínica, de modo a incluir um maior número de crianças que apresentam alguma perturbação no desenvolvimento da linguagem, além do que vinha sendo tradicionalmente diagnosticado como DEL ou PEL (Bishop, Snowling, Thompson, Greenhalgh, & CATALISE consortium, 2016).

O adjetivo específico em DEL indica que se trata de um transtorno exclusivo do domínio da linguagem por não haver causas aparentes para as manifestações observadas e por não haver comprometimentos na cognição não verbal. Logo, o TDL inclui o DEL. Inclui também, no entanto, crianças com comprometimentos na cognição não verbal, dificuldades de aprendizagem em geral, ou condições sociais adversas que podem afetar o desenvolvimento linguístico.

A adoção do termo TDL, por um lado, reflete a dificuldade que se tem observado no diagnóstico do DEL, por meio dos critérios de exclusão tradicionalmente utilizados. Por outro lado, visa a garantir que um número maior de crianças receba atendimento terapêutico voltado para problemas de linguagem, independentemente de sua natureza. Observa-se, em particular, que não só é difícil tomar condições sociais como critério de exclusão, como esse critério, se observado de forma estrita, poderia excluir um grande número de crianças.

O MABILIN, ao ter como foco algo que possa ser específico do domínio da linguagem, pode ser informativo para profissionais de educação e saúde, independentemente das condições sociais da criança, dos problemas de aprendizagem que apresente ou da coexistência de comprometimentos na cognição mais ampla. Esses profissionais poderão localizar, de forma mais precisa do que por meio da observação naturalista, o tipo de estruturas ou processos afetados. Pesquisadores interessados no quanto há de específico do domínio da linguagem, nas dificuldades de linguagem que a criança apresenta, por sua vez, encontrarão um material que poderá ser interpretado à luz de teorias linguísticas ou psicolinguísticas e contribuir para o desenvolvimento destas.

Uma vez que o MABILIN foi direcionado a contribuir para a identificação do tipo de problema de linguagem que a criança pode manifestar, no quadro do DEL, apresentamos o modo como esse distúrbio vem sendo caracterizado.

DEL é uma perturbação da linguagem consideravelmente heterogénea decorrente de dificuldades na aquisição da língua materna. As suas manifestações podem ser identificadas nos domínios da fonologia, da morfossintaxe, do léxico, em geral, das relações entre gramática e pragmática (o uso da língua adequado ao contexto) e, particularmente, no domínio da sintaxe (Bishop, 1992; Friedmann & Novogrovsky, 2008; Leonard, 1998; Jakubowicz, 2006).

Dados internacionais estabelecem 5 a 7% de incidência de DEL na população em idade escolar. Os resultados de uma ampla avaliação de crianças em escolas públicas municipais do Rio de Janeiro chegou a valores semelhantes (Corrêa, 2012). E, embora não sejam conhecidos dados epidemiológicos sobre esta condição clínica em Portugal, considerando-se o mais recente recenseamento da população portuguesa (Censos 2011), estimase que aproximadamente entre 80 000 e 111 000 crianças em Portugal são afetadas por DEL.

O que o MABILIN avalia no desenvolvimento linguístico?

Cada módulo do MABILIN avalia aspectos específicos do processamento linguístico. Os módulos são oferecidos de forma independente.

No momento, disponibilizamos o Módulo 1 (sintático) que avalia a compreensão de estruturas consideradas de alto custo de processamento.

Módulo 1sintático

Apresenta-se aqui o Módulo 1 do MABILIN, disponíveis nas versões PB (português brasileiro) e PE (português europeu). As estruturas de alto custo avaliadas são:

Orações na voz passiva

(1) O leite foi bebido pelo gato.
[gato = AGENTE / leite = TEMA]

(2) O leão foi puxado pelo urso.
[urso = AGENTE / leão = TEMA/PACIENTE]

Nota: Os termos Agente e Tema/Paciente dizem respeito à interpretação semântica dos participantes na ação descrita pela frase. Agente é aquele que pratica a ação; Tema/Paciente é aquele que sofre a ação.

Nestas estruturas, o sujeito, que usualmente tem a função de Agente da ação descrita pelo verbo, assume o papel de Paciente/Tema dessa ação. Essa alteração é custosa no processamento linguístico.

(3)

Quando o verbo da oração permite, do ponto de vista pragmático, que os dois participantes do evento descrito sejam tanto Agente como Paciente/Tema, ou seja, quando a ação é reversível, o custo de processamento é maior.

(4)

Crianças com desenvolvimento típico tendem a tomar preferencialmente o sujeito como Agente até por volta dos 5 anos de idade. Crianças com sintomas de DEL tendem a manter o uso dessa estratégia até mais tarde.

Orações interrogativas com QUEM/O QUÊ

Estas estruturas são chamadas também de interrogativas QU (símbolo para os pronomes interrogativos):

(5) Quem o leão puxou __?


Naquelas em que o elemento interrogativo tem a função sintática de objeto, ou seja, aquelas em que o elemento interrogativo QU corresponde ao objeto do verbo que é “deslocado” da sua posição canónica para o início ou posição mais à esquerda da sentença, como em (5) e (6), a necessidade desse tipo de operação linguística e/ou de o elemento “movido” ser mantido ativo na memória de trabalho até que sua posição canónica seja identificada acarreta(m) um custo de processamento consideravelmente alto.

Orações interrogativas com QUE+nome

As orações interrogativas com QU+nome, como em (6), integram adicionalmente o fato de o elemento deslocado para a periferia esquerda ter estrutura semelhante à do sujeito da oração (com determinante e nome), o que pode explicar o fato de estas estruturas tenderem a ser ainda mais difíceis de serem processadas do que as de (5).

(6) Que leão o urso puxou __?


Orações relativas

De forma semelhante, nas orações relativas de objeto, o objeto da oração relativa é “deslocado” da sua posição canónica.

(7) O leão puxou o urso que o tigre abraçou __.

(8) O leão que o urso puxou __ abraçou o tigre.

Orações relativas ramificadas à direita, como (7), fazem parte do objeto da oração principal (como um adjunto). Orações relativas encaixadas no centro, como (8), fazem parte do sujeito da oração principal (como um adjunto), acarretando considerável esforço para que a relação sujeito-verbo venha seja estabelecida.
De entre as orações relativas, as relativas de objeto encaixadas no sujeito são, em princípio, as estruturas de maior custo.